-boa noite, senhoras e senhores. eu sou o comandante silva e hoje…todos nós iremos morrer.

O vôo estava normal. Mas, no fundo, sentia que algo estava errado. Os excessivos olhares entre aeromoças e piloto, o leve descaso com que alguns de nós fomos tratados ao embarcar… – Okay. Isso não é relevante. – Pensei. Tinha uma pequena aerofobia, mas nada que me impedisse de ver o meu amor, a cada fim de semana. O clima lá dentro era o típico, mas, agraciado como sou com a minha capacidade de dedução aguçada, percebi que nem tudo estava de acordo. Novamente, ignorei e me sentei na poltrona cujo número estava gravado em minha passagem. O ursinho que ela tanto almejou estava no bagageiro, lá atrás. Ela. Os meus pensamentos se dirigiam a ela constantemente, num fluxo de informações que só tinha apenas ida. A senhora ao meu lado me lançou um sorriso, como se soubesse exatamente o que se passava em minha mente. De fato, o olhar de um homem apaixonado é facilmente reconhecido em qualquer parte do mundo. Lhe acenei com a cabeça, como em confirmação, e esperei a decolagem. Alguns minutos depois, quando as aeromoças já tinham feito os avisos de costume, o avião começou a andar e finalmente saiu do chão. Não me lembro de nada interessante e incomum até a primeira meia hora de vôo. Mas, assim que iriam se completar 45 minutos de vôo, uma voz ecoou pelo avião, levemente chiada. Era o piloto do vôo. – Boa noite, senhoras e senhores. Sou o Comandante Silva, e hoje… todos nós iremos morrer. – A voz de súbito silenciou. Por um segundo, que pareceu mais um pulsar do coração, um latejar de veias ou algo igualmente breve, ninguém falou. Em seguida, uma balbúrdia de vozes desesperadas e de homens enraivecidos tomou conta do Boing. Eu não sabia o que fazer, mas tudo ao meu redor era caos. Duas idosas desmaiaram, e lembrei-me delas no final. Uma mãe começou a chorar copiosamente. Alguns dos mais fortes tentaram forçar a porta da cabine, mas em vão. Parecíamos que estávamos todos a mercê daquele homem e, se o que ele afirmou fosse realmente verdade, estávamos a disposição da morte. Alguns rezaram. Esses eu ignorei, porque realmente não pensava em mais nada. – Senhores, faltam apenas 10 minutos para a nossa morte. – O comandante falava em tom sádico, como se estivesse se divertindo com isso. Mas, ainda assim, era um tom de voz que não deixava dúvidas quanto ao nosso cruel destino. Passei as mãos na cabeça porque, ao contrário dos outros passageiros, já tinha me convencido inteiramente que não havia mais nada para fazer. – Senhores, rezem por suas almas. Adeus. – Sentava a janela, e por isso pude ver o que se sucedeu. O piloto parecia estar jogando o avião contra uma cidadezinha ali perto. A minha poltrona era uma das últimas, na parte traseira do avião, e por isso, pude ver o que aconteceu. O avião explodiu, mas eu não tinha explodido. Vi corpos caindo, poltronas voando, em seguida perdi a consciência. Acho que não estou mais aqui. Mas, naqueles últimos segundos de vida, tudo me passou a cabeça. As idosas que desmaiaram: senti inveja. Inveja porque não sofreram. Inveja porque só sentiram um pequeno temor, em seguida deixaram de existir. Mas eu pensei realmente nela, e como poderia explicar que nunca mais vou aparecer, todo domingo, na porta de sua casa com um presente, um beijo e o meu amor. O ursinho? Crispou-se em chamas, assim como todo o resto. Ninguém sobreviveu. Ninguém relatou o que realmente aconteceu. E ela ainda chora, toda noite, abraçada a uma foto minha. – Senhores, hoje todos nós iremos morrer. – Uma explosão na escuridão pesada. Um trovão na noite calada. Pessoas que nunca mais iriam retornar para seus lares. Que iam deixar parentes. E ela ainda chora, toda noite, abraçada a uma foto minha.

 

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